Filósofo Clóvis de Barros Filho comenta sobre a padronização da felicidade e as práticas antiéticas

"Toda vez que um canalha se dá bem, a sociedade se dá mal", afirma Clóvis

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Filósofo palestrou na noite de ontem, na Sociedade Santos Dumont -
Crédito: Bárbara Sales

O escritor, filósofo e professor universitário Clóvis de Barros Filho realizou na noite de ontem uma palestra em Brusque e, assim como faz no Brasil inteiro, tocou nas maiores feridas da sociedade. Em entrevista na sede do jornal Município Dia a Dia, à tarde, ele comentou sobre as práticas antiéticas neste período de eleições municipais, além do que seria uma padronização da felicidade e uma possível solução para a cultura do ‘jeitinho brasileiro’.

A palestra, organizada pela Jasper Entretenimento foi realizada na Sociedade Santos Dumont e reuniu centenas de pessoas.

Município Dia a Dia: Vivemos em uma região em que a cultura do empreendedorismo parece estar arraigada na população. Filhos se vêem seguindo os passos dos pais e continuando no mundo dos negócios. Você costuma falar em suas palestras que a felicidade é individual, mas neste caso, acredita que a felicidade atingiu uma padronização?

Clóvis de Barros Filho: As pessoas têm recursos de uma riqueza quase infinita para que alcancem os seus sonhos. No entanto, é preciso que essa vontade desabroche dentro do indivíduo, e isso depende do ambiente em que se vive. Para ser um desenhista, precisa saber desenhar bem, mas se os espaços forem opressores é difícil desenvolver essa prática. O normal é que a sociedade cobre que a pessoa seja uma coisa que às vezes ela não queira ser. O Neymar nasceu com um dom de jogar futebol, mas ele só desenvolveu isso por causa do seu ambiente. Se fosse um carregador de saco de batatas no porto de Santos, ele não seria o jogador que é hoje. A padronização por vezes é uma pasteurização, um engessamento em que não há felicidade, e portanto os espaços sociais precisam ser arejados, aonde a felicidade possa desabrochar.

Município Dia a Dia: Muitas pessoas que conhecemos e consideramos éticas, como nossos amigos e familiares, acabam cometendo deslizes antiéticos. Como mudar essa situação em que, por um breve momento, nos beneficiamos de uma coisa mesmo que prejudique um conjunto de outras pessoas?

Clóvis: A ética é um zelo coletivo e depende do hábito e do pensamento da sociedade. Se o japonês limpa toda a arquibancada do estádio depois do jogo é porque ele parou e pensou que essas arquibancadas serão utilizadas por outras pessoas depois, ou seja, ele se importou. Aqui, se uma pessoa se vê em uma piscina aquecida, com vontade de fazer xixi, sabendo que o mictório está distante e ainda o solo está cheio de pedras, ela faz o xixi e acaba condenando todas as pessoas ao redor. Esse é o canalha. Canalha, por definição, é aquele que se beneficia de algo e prejudica um outro grupo de pessoas. Toda a vez que um canalha se dá bem, a sociedade se dá mal. Mas não acredito que não haja solução. A Coreia, por exemplo, era um país de várzea até não pouco tempo. Não vejo no que um coreano possa ser melhor do que nós. Alguns dirão que nosso país é maior, mas isso é a desculpa para continuarmos agindo da maneira que agimos.

Município Dia a Dia: O problema da falta de ética está no cerne da sociedade e pode ser solucionado com a educação, mas na última semana a filosofia, que abrange a ética, foi considerada por meio de um projeto de lei, uma matéria opcional no Ensino Médio. Qual sua opinião sobre isso?

Clóvis: É uma maneira de se pensar as coisas. Se você coloca uma disciplina como opcional, você diz que ela é menos importante que as obrigatórias. Agora, se acreditam que saber sobre a função de uma mitocôndria é mais importante do que ensinar as pessoas a conviver em sociedade, paciência.

Município Dia a Dia: Neste período de eleições municipais, ainda acompanhamos velhas práticas de compra de votos e outros deslizes éticos. Quando vamos erradicar isso no Brasil?

Clóvis: Quando aprendermos a escolher pessoas que em seu nome lutarão por bons valores. Quando tivermos uma sociedade preparada, teremos candidatos preparados. Não conseguiremos ter candidatos ‘classe A’, se temos um conhecimento de política ‘classe C’. Alguns mais lúcidos escolherão seus candidatos, outros menos lúcidos trocarão seu voto por um par de chinelas. Agora, faça uma sociedade melhor e terá uma classe política melhor.

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