Identidade tardia

identidade tardia

Estou caminhando ainda. O vento sopra em meu rosto e meu cabelo está em desalinho. Está elétrico, pura energia acumulada. Plena noite de sexta, agosto. Por muito pouco não é dia 13. Resolvi caminhar sozinha pelo quarteirão. Não sei bem o que busco, mas é um misto de lar e de cidade. Me deparo com a primeira coisa que me faz sair do sério: o enorme buraco, quase um cânion em frente à prefeitura. Brusque hoje parece estar contida neste abismo.

Percebo o barro vermelho ainda lama, escorrendo e adentrando para o buraco, observo a massa inflamada se acumulando lá no fundo e construindo figuras, cenários, memórias.

Resolvo ficar por aqui e começar a dar voltas nesse enorme “piscinão de Ramos” que a medida que a chuva cai enchendo, vai virando espelho. O que está refletindo? Torres imensas, que se imaginam tradicionais em uma arquitetura eclética e mentirosa. E mais embaixo, deixando uma sensação de desconcerto aparece a câmera dos vereadores que penso que poderiam estar oferecendo pizzas, quase chego a sentir o cheiro de massa com o calor que a luz do escandaloso lustre me envolve. Lustre aliás, que tem um guarda especial para ele, tamanha é sua sofisticação. Mas, qual nada, não há alimento ali…

Percebo também os prédios em volta, como se fossem guardiões, que esticam seus pescoços de concreto como se espiassem o buraco tentando, desesperadamente, encontrar algo, quem sabe uma saída. São repetitivos, quase todos poluídos de janelas parcialmente iluminadas, muitos com luzes que a tv ligada revela, azuis, vermelhas, poucas amarelas…

Há também as casas, poucas na verdade, que resistiram à invasão inconseqüente da modernidade, elas mesmas simplesmente se negando a contribuir com o adestramento. São casas simples, com varandas ainda, algumas transformadas em clinicas médicas, a região está paulatinamente transformando-se no centro médico de Brusque. Aprecio, de certa forma, essa maneira inusitada de preservar. Quase consigo ver um passado que não vivi, mas onde havia cadeiras em frente à rua para apreciar o movimento, pois havia um ir e vir de pedestres, carros de mola, alguns calhambeques desprovidos de velocidade e pressa. Isso me encanta!

Possuída que estou em encarnar algum passado que possa me entusiasmar o presente, acabo por perceber o calçamento apenas em duas das ruas que ladeiam meu buraco eleito. E as pedras, lado a lado, conversando umas com as outras passam a ser personagens históricos, revelam olhares ocultos por trás das cortinas. Penso estar só, pelo adiantado da hora, mas mil olhos cuidam de mim.

Resolvo me sentar no que sobrou da construção que deu lugar ao buraco, melhor seria dizer “abismo”. É uma pequena murada, me sento ali e abro minha garrafa de vinho tinto, a noite está fria e merece essa comemoração quase solitária. Lembro-me da fábrica que havia aqui, a Buettner, que sonhei vê-la como um centro cultural, onde as pessoas pudessem se encontrar, criar, fazer e acontecer. Meu querido Osmar, que já se foi para outras veredas, além desse mundo, fotografou com lágrimas no coração, quando implodiram e derrubaram a mesma construção que abrigou por anos a fio o sustento e o projeto de futuro de meus avós e pais. Ambos choramos nesse dia, ao olhar um mundo que desabava em troca de um vazio que, pelo que vejo, jamais será preenchido.

Tento lembrar vorazmente dos sons dos teares, que me acordavam na madrugada e que me faziam xingar e ao mesmo tempo me sentir acompanhada com aqueles suspiros altos e uma marcha repetitiva, que sacudia não só o prédio onde moro, que está aqui, bem diante de mim, mas também meu corpo, que por vezes se mostrava acomodado, irritadiço e inerte. Procuro na memória o cheiro da biblioteca, paraíso perdido, onde eu busquei tantas vezes alento para minha imaginação fértil demais. Encontro alguma coisa, mas parece ainda mofo, um cheiro azedo do que se perdeu.

O vinho está no final, eu teimo ainda em continuar minha busca…mas, aos poucos meus olhos vão ficando cansados, quase durmo ali na mureta da fábrica…e então, como um monstro barulhento e feroz, o caminhão de lixo me acorda de qualquer nostalgia que poderia vir a sentir, e com suas pás, seus homens revoltados e infelizes, apreciando por demais o barulho na madrugada, retiram lixos, sonhos, abismos, todo e qualquer tipo de entulho que é vestígio do dia, e capturam em uma boca de bernunça, engolindo e mastigando os restos de uma humanidade que se rendeu às regras acabrunhadas de uma cidade que não atingiu a maioridade e continua refém do progresso.

Deixo minha taça de vinho na amurada…quero registrar essa lembrança, provocar quem sabe o sonho em alguém…subo para o meu apartamento no quarto andar, consciente de que o barulho do elevador não vai acordar mais ninguém, pois o caminhão de lixo já fez esse papel. Entro em casa, meu refúgio e minha identidade está lá, pouco ou nada a ver com a rua, mas simplesmente uma identidade tardia, de quem já bebeu vinho demais e precisa finalmente abandonar-se nos braços de Morfeu…

 

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Silvia Teske – artista

 

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