Imigração italiana no Brasil iniciou em São João Batista, afirma historiador

Em 1836, 132 imigrantes católicos do Reino da Sardenha chegaram à Colônia Nova Itália

Igreja São José, sede da ex-colônia Nova Itália, instalada há 180 anos (2) (Copy)
A igreja São José, com sede na ex-colônia Nova Itália, foi construída há 180 anos -
Crédito: Juliane Ferreira/Acervo Paulo Kons

No ano passado, municípios da Serra gaúcha, como Caxias do Sul, comemoraram os 140 anos da imigração italiana no país. A celebração, no entanto, é contestada pelo historiador brusquense Paulo Kons. Segundo ele, os primeiros italianos que desembarcaram em terras tupiniquins chegaram à Colônia Nova Itália, atualmente chamada de Colônia, localizada em São João Batista, há 180 anos.

Fugindo da crise agrária que se instalou no país europeu, os italianos optaram pelo Brasil devido às ofertas de trabalho. Em 1836, explica Kons, 132 imigrantes católicos do Reino da Sardenha, sob a liderança do italiano Carlos Demaria e do suíço Henrique Schutel, abrigaram-se na Colônia Nova Itália.

“Para que há exatos 180 anos fosse instalada a Colônia Nova Itália, o governo provincial catarinense fez aos empreendedores uma concessão especial de terras, com caráter provisório e ainda não demarcadas”, explica o historiador.

Kons, que residiu em São João Batista em 1976, diz que existe uma “grande confusão” na história oficial brasileira em relação ao assunto. Os meios de comunicação e alguns historiadores, afirma ele, confundem a grande imigração e o início da imigração.

O historiador Paulo Kons (de azul) se reuniu com descendentes dos primeiros imigrantes

O historiador Paulo Kons (de azul) se reuniu com descendentes dos primeiros imigrantes

“Os 140 anos que eles comemoram da imigração na realidade se refere à grande imigração. Na época foi celebrado um contrato entre o governo imperial brasileiro e Caetano Pinto para introduzir 100 mil imigrantes europeus, a maioria deles do norte da Itália. A grande mídia confunde até porque a Colônia Nova Itália foi uma colônia humilde”, argumenta.

Para o historiador, reconhecer esse marco histórico é uma forma de justiça à história do local e também uma forma de mostrar às pessoas a verdade sobre a imigração italiana no país.

“Nós tivemos acesso a vários documentos que comprovam isso. São poucos os historiadores, como Walter Fernando Piazza e o almirante Lucas Alexandre Boiteux [descendente de Luc Montandon Boiteux, que fora diretor da Colônia Nova Itália] que estudaram e conhecem isso. Ninguém nega o fato, mas a grande mídia brasileira e livros de história o omitem”.

Dentre as primeiras famílias que desembarcaram em São João Batista, afirma Kons, estão sobrenomes como Caviglia, Formento, Nocetti, Peixer, Sardo, Zunino, e, mais tarde, Sartori.

Documentos, inclusive com selo do imperador Dom Pedro II, comprovam a presença dos imigrantes

Documentos, inclusive com selo do imperador Dom Pedro II, comprovam a presença dos imigrantes

José Sardo, de 66 anos, é um dos descendentes dos primeiros imigrantes. Segundo ele, cerca de 20 famílias descendentes ainda residem no local.

“Muitas foram embora, porque é uma comunidade agrícola. Mas para nós é importante ser o local em que chegaram os primeiros imigrantes. Passamos 180 anos sem reconhecimento, e agora passamos a ser reconhecidos”, afirma Sardo.

Assim como ele, o prefeito de São João Batista, Vilmar Francisco Machado, também valoriza a história do município. Machado afirma que é um privilégio para a cidade ter sido o primeiro território a receber os italianos.

“Nós já sabíamos dessa informação, mas não havia sido feito nenhum trabalho mais aprofundado. É uma satisfação para o município essa data ser lembrada e é importante para a cidade ter sido a primeira colônia italiana no Brasil. Isso dá uma notoriedade para São João Batista”, diz.

Na Colônia, também há um cemitério com restos mortais de imigrantes

Na Colônia, também há um cemitério com restos mortais de imigrantes

Associação

Para preservar a história e repassar a informação ao maior número de pessoas possíveis, Kons está fomentando a organização de uma associação de descendentes e amigos do núcleo italiano pioneiro no Brasil. As ideias são reunir os documentos que comprovam os 180 anos, com o resgate e perenização da memória, realizar uma festividade anual e também manter intercâmbio social, religioso e econômico com as regiões de origem dos imigrantes na Itália.

“Já me reuni com moradores e também com o ex-prefeito de São João Batista, Daniel Netto Cândido. Vamos levar essas informações para universidades para ampliar os conhecimentos e dar a devida publicidade e reconhecimento dessa epopeia precursora”, afirma o historiador.

Comemorações

Além da criação da associação, outra ação também auxiliará na divulgação dos 180 anos: trata-se da visita de Dom Bertrand de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel, a Brusque. Ele estará na cidade entre os dias 14 a 16 de novembro para dar a palestra inaugural do Ciclo Brusquense de Conferências Magnas Temáticas e para participar da celebração dos 180 anos de instalação da primeira colônia de italianos no Brasil, que será realizada às 16h de 14 de novembro, na igreja São José em São João Batista.


O início

Segundo o historiador Paulo Kons, a iniciativa de criação e instalação da colônia Nova Itália foi dos médicos Henrique Ambauer Schütel e Carlo Demaria em 1835. No mesmo ano, eles solicitaram terras ao governo provincial catarinense, recebendo, em 23 de junho de 1836, o “título de uma concessão de terras para colônia nas margens do rio Tijucas-grande”.


Registros da visita à Igreja São José, na sede da ex-colônia Nova Itália, a mais antiga colônia italiana do Brasil

Altar da Igreja São José, sede da ex-colônia Nova Itália

Altar da Igreja São José, sede da ex-colônia Nova Itália

Certificado da Agência Consular da Itália datado de 1894

Certificado da Agência Consular da Itália datado de 1894

Missal Romano com data de 1879

Missal Romano com data de 1879

Registro de Imóvel do ano de 1897

Registro de Imóvel do ano de 1897

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