Moradores e atletas de Brusque ligados à Chapecoense repercutem tragédia

Acidente levou 71 pessoas à morte, durante voo rumo à final da Copa Sul-Americana

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Chapecoense seria primeiro time catarinense a disputar uma competição internacional -
Crédito: ACF/Divulgação

Um dia após a já considerada maior tragédia da história do futebol mundial, as informações ainda repercutem. A morte de 71 pessoas que estavam no voo que transportava a delegação da Associação Chapecoense de Futebol para Medellín, na Colômbia, atingiram os apaixonados pelo esporte, aqueles que não se interessam pelo futebol e principalmente quem tem história para contar com o Verdão do Oeste.

Pela primeira vez na história, um time catarinense chegava à final de uma competição internacional – a Copa Sul Americana, em que a Chape enfrentaria o Atlético Nacional. A viagem de São Paulo até a Bolívia precisou fazer uma escala na Bolívia. Foi lá que o grupo de dirigentes, membros da imprensa e atletas entraram no avião LaMia, matrícula CP2933, que nunca alcançou seu destino final.

Avião caiu faltando 50 quilômetros para alcançar o aeroporto / Foto: Aeronáutica Civil/Divulgação

Avião caiu faltando 50 quilômetros para alcançar o aeroporto / Foto: Aeronáutica Civil/Divulgação

Clube conhecido pela organização e pelo relação de amor com seus atletas, a Chapecoense sempre foi objeto de desejo de jogadores de futebol que pretendiam se projetar nacionalmente. Aélson, hoje no Brusque, e Palmito, ex-atleta e ídolo da torcida quadricolor, levaram um susto ao receberem as informações sobre o acidente.

Mauro Ovelha, técnico do Brusque e que foi campeão catarinense com a Chape em 2011, disse não ter condições de dar entrevista devido ao abalo emocional. Ele era amigo pessoal do presidente Sandro Pallaoro, além de demais dirigentes e atletas.


Memórias de quem vestiu a camisa

Ídolo do Brusque Futebol Clube, Edemar Luis Aléssio, o Palmito, também teve bela passagem pela Chapecoense. Para quem acompanha a Chape não apenas nestes ‘anos dourados’, mas desde quando a equipe era pouco conhecida nos anos 1980, ainda tem na memória a equipe de 1987.

Em 2015, Palmito recebeu uma camisa da Chape das mãos da diretoria. À direita dele, (segundo da esq. pra dir.) o presidente Sandro Pallaoro, vítima fatal do acidente / Foto: Arquivo Pessoal

Em 2015, Palmito recebeu uma camisa da Chape das mãos da diretoria. À direita dele, (segundo da esq. pra dir.) o presidente Sandro Pallaoro, vítima fatal do acidente / Foto: Arquivo Pessoal

Com uma campanha impressionante e capitaneada por Palmito, o time chegou a ficar 17 rodadas invicto, com a melhor defesa e o melhor ataque. Nascido em Palmitos, justamente o Oeste catarinense, o ex-jogador e atual gerente do Sesc de Brusque deixou amigos com a tragédia da madrugada de terça-feira, 29. “É desesperador o pensamento de que eles tinham chegado lá, e estavam prestes a lutar por uma conquista a nível internacional, mas isso foi interrompido por uma tragédia. Você se põe dentro disso, quem jogou sabe que é uma dor terrível”, diz.

O elo entre Palmito e a Chapecoense se fortaleceu através dos anos. Ele lembra que se casou na véspera da partida entre Joinville e Chapecoense, e praticamente todo o elenco e os dirigentes do clube da época compareceram à cerimônia. Entre os amigos que Palmito perdeu no avião estava o dirigente Edir Félix De Marco, além do presidente Sandro Pallaoro. Ainda no ano passado, Palmito foi homenageado pelos dirigentes do Verdão em sua cidade natal, recebendo uma camisa recente da Chape. “Conversei com o Sandro este ano ainda, quando a Chapecoense jogou em Brusque. Ele era o cara com um sonho de tornar a Chape grande, fazer com que as pessoas da região Oeste abraçassem o time e não torcessem apenas para Grêmio e Inter, e ele alcançou esse objetivo”, completa Palmito.

Campeão catarinense com Brusque, Joinville e Criciúma, Palmito se disse triste por não poder colaborar ainda mais do que apenas estender suas condolências aos familiares dos envolvidos no acidente. “A gente sente essa impotência, essa vontade de ajudar e não ter condições, mas vamos acreditar em Deus para que conforte essas famílias e que o clube tenha forças para continuar essa caminhada”.

Palmito foi atleta querido na Chape nos anos 1980, e lamenta a perda de amigos pessoais (o sexto em pé, da esq. pra dir.) / Foto: Arquivo Pessoal

Palmito foi atleta querido na Chape nos anos 1980, e lamenta a perda de amigos pessoais (o sexto em pé, da esq. pra dir.) / Foto: Arquivo Pessoal


Amizade além das quatro linhas

Hoje atleta do Brusque, o lateral-esquerdo Aélson também foi jogador da Chapecoense, vivendo altos e baixos na equipe. Ele chegou em 2009 para o lugar de Badé, um atleta querido pelos torcedores, e teve a felicidade de também cumprir seu dever no clube. Conquistou o acesso à Série C naquele mesmo ano, levando o time à terceira colocação da Série D, viveu a aflição da queda no estadual em 2010 – com retorno em 2011 graças à desistência do Atlético de Ibirama – e o momento de consagração com o título estadual no ano seguinte.

Aélson deixou colegas de profissão e principalmente um amigo pessoal. O volante Cleber Santana, que teve passagem por Flamengo e São Paulo, era parceiro do lateral-esquerdo desde os tempos de Avaí. O atleta conta que Cleber, inclusive, o ajudou recentemente em um problema pessoal. “A minha esposa sofreu um acidente e bateu o carro, mas saiu com vida e não teve ferimentos graves. Só que eu preciso ainda bancar as despesas da colisão, e quando falei isso para o Cleber ele se dispôs a ajudar com uma rifa”, revela.

Quando recebeu a informação, Aélson confessou que demorou a absorver tudo. “Me ligaram uma, duas, três vezes e quando consegui atender, falaram isso. Eu dei um salto da cama, corri pra ligar a TV e aí vi tudo. Foi um choque”, explica o atleta, que está no Maranhão com sua família. “As pessoas daqui que sabem que joguei na Chapecoense vêm falar comigo, é uma comoção geral. Eu estou dobrando meu joelho e pedindo a Deus forças para suportar a dor”.

Bruno Coelho Campigotto, brusquense, é apaixonado pela Chapecoense / Foto: Divulgação

Bruno Coelho Campigotto, brusquense, é apaixonado pela Chapecoense / Foto: Divulgação


Chapecó em luto

A tristeza também assolou aqueles que deixaram Chapecó, mas ainda têm fortes laços com o município do Oeste. Com a voz embargada e sem esconder a emoção, o advogado Fabiano Campigotto, hoje morador de Brusque, lembra a importância que a equipe de futebol tem na sua vida.

“Tenho um filho que eu ensinei a amar a Chapecoense. Ele joga na escolinha de futebol do Bandeirante e usa sempre a camisa do time, inclusive foi para a aula com ela”, explica.

Ainda nos anos 1980, Campigotto veio morar em Brusque pois seu pai trabalharia no Banco do Brasil da cidade. Aqui, começou a carreira como advogado e formou sua família. Hoje ciclista, teve um passado esportivo iniciado em Chapecó. “Fui atleta das escolinhas de futebol e vôlei da Chapecoense. Praticamente cresci dentro daquele estádio, e aqui de longe sempre estou acompanhando os jogos da Chapecoense. Foi muito duro”, conta.

Com familiares ainda em Chapecó, Campigotto contou um pouco sobre o clima que a cidade vive. “Tenho uma prima também fã da Chape, que vai ao estádio assistir os jogos. Todo mundo está consternado, e não é só o pessoal de Chapecó, é o Brasil todo. Foi um time que cresceu devagarinho e querido por todos”.


O acidente

A delegação da Chapecoense partiu de São Paulo, onde o time jogou a rodada do Campeonato Brasileiro no último fim de semana, com destino à Colômbia. O grupo fez uma parada em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, em direção a Medellín. A aeronave perdeu contato com a torre de controle a 1h15 (horário de Brasília), entre as cidades de La Ceja e Abejorral, e caiu próximo do aeroporto.

O Comitê de Operação de Emergência informou que a aeronave se declarou em emergência por falha técnica quinze minutos antes de perder contato com a torre. Apesar de ainda não haver declaração oficial dos órgãos responsáveis, a probabilidade mais apontada é de falha elétrica. O piloto despejou combustível ao perceber que o avião iria cair.


Título da competição

A diretoria do Atlético Nacional solicitou à Conmebol que a Chapecoense seja considerada campeã da Copa Sul-Americana. As duas equipes fariam hoje o primeiro duelo das finais.

“Por estarmos muito preocupados com a parte humana, pensamos no aspecto competitivo e queremos publicar este comunicado onde o Atlético Nacional pede à Conmebol que o título da Copa Sul-Americana seja entregue ao Chapecoense como homenagem à sua grande perda e em homenagem póstuma às vítimas do acidente fatal que deixou o esporte em luto. De nossa parte, e para sempre, Chapecoense: Campeão da Sul-Americana de 2016”, apresenta a nota do time colombiano. A Conmebol ainda não se manifestou sobre o assunto.


Sobreviventes

  • Rafael Henzel, narrador esportivo da rádio Oeste Capital FM
  • Alan Ruschel, lateral
  • Jakson Follmann, goleiro (teve uma das pernas amputadas)
  • Neto, zagueiro
  • Ximena Suarez, auxiliar de voo
  • Erwin Tumiri, técnico da aeronave

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