O alvo

O tiro ao alvo (ou “Tiro ao Álvaro”, como diria Adoniran Barbosa), especialmente com arco e flecha, é um dos esportes que eu mais admiro. Sua prática exige talento, concentração e muito treino. Conta-se que, certa vez, alguém visitou a casa de um suposto praticante desse esporte e encontrou seu quintal cheio de alvos atingidos “na mosca” por muitas flechas. Indagado sobre tamanha precisão, o indivíduo respondeu que primeiro atirava as flechas, depois desenhava os alvos.
Quando eu era criança, andar com “pernas de pau” era uma brincadeira frequente, e quanto mais alto fosse o “calço”, mais sucesso se fazia. Eu nunca consegui me equilibrar naquele troço. Então fiz uma adaptação, colocando o calço no nível do chão. Andava sozinho com minha invenção, me vangloriando do meu “sucesso”.
Essa “técnica” pode ser inofensiva numa brincadeira, mas tem sido usada para coisas bem mais sérias. Quando as metas que precisamos atingir ficam difíceis, ao invés de darmos um fôlego a mais para superar a dificuldade, fica mais fácil redesenhar o alvo, adaptando os objetivos aos limites da nossa preguiça. Se há muitas reprovações na escola, “no problem”, a gente muda a forma de avaliação, ou determina a aprovação automática de todos. Assim recheamos as estatísticas com nosso ”sucesso”. Se a gramática está difícil, deixamos simplesmente de ensiná-la, para “valorizar a linguagem comum”, oficializamos o analfabetismo funcional e todo mundo fica feliz. Está difícil educar crianças e jovens para uma vida sexual equilibrada e sadia? Simples: uma boa quantidade de preservativos e anticoncepcionais resolve o problema.
O governo gastou demais e não atingiu a meta fiscal? Muda-se a meta, e o que era a previsão de um superávit de 24 bilhões passa a ser um déficit de 170 bilhões. De qualquer forma, o alvo “pintado a posteriori” foi atingido.
Ah…e pra quê essas músicas com letras inteligentes e melodias bem elaboradas, que dão um trabalhão e exigem talento? Melhor dizer meia dúzia de frases idiotas em melodias fáceis e repetitivas. Dá pra compor um disco inteiro em meia hora e ainda fazer um baita sucesso!
Tudo o que é importante e significativo exige esforço, dedicação e sacrifício. Que o digam os grandes esportistas, artistas, intelectuais e todas as pessoas de bem, que procuram levar uma vida honrada e baseada na virtude. Mas a disposição para o sacrifício anda em baixa, porque nossa sociedade está saturada de apelos à facilidade, ao prazer imediato, e os objetivos são sempre nivelados por baixo.
Mas não vamos ficar mais competentes elogiando a incompetência. Estamos apenas desenhando alvos falsos e nos iludindo. Precisamos de uma espécie de “renascimento”, que faça fumegar de novo aqueles valores mais preciosos, suficados no meio de tanta mediocridade.

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